sexta-feira, 28 de março de 2008

Verbos (Do lat. verbu-, «palavra») forma de enunciação do pensamento através das palavras; elocução; forma de expressão;

Tudo se passou numa sexta-feira quando, ao final do dia e aproveitando o facto de ser véspera do dia da mulher, fui ao cabeleireiro esticar a minha farta cabeleira.

Estava eu à espera de ser atendida (coisa muito comum em Marrocos, mesmo que não esteja ninguém na nossa frente), quando chega uma senhora com um ar bastante digno e começa à conversa com a Sra. D. Cabeleireira. O tema era “qual a hipótese de marcar para fazer madeixas este fim de semana”.

À partida não parece um tema nada interessante mas eu (e desculpem-me se sou louca) estava fascinada com a conversa.

Claro que tal marcação era impossível porque a Sra. D. Cabeleireira já tinha a agenda cheia (ou como ela dizia: “tenho aquilo cheio”, tendo nós, deste lado, nos pormos a adivinhar o que será “aquilo”).

Um aparte: não imaginam de como é aqui o dia da mulher! Um monte de mulheres histéricas que se juntam e jantam e vão para a noite, histéricas, de todas as idades, com clações que nem as nádegas tapam e com brilhantes nos sítios menos imagináveis... Uma loucura (de galinheiro, como devem calcular)!

Voltando ao tema central. Mesmo estando com “aquilo” cheio, a Sra. D. Cabeleireira, com a sua simpatia e bondade lá arranjou um buraquinho “naquilo” para a Sra. D. Digna ir lá pôr-se toda jeitosa. A Sra. D. Digna respondeu prontamente que não que aquela hora era inconveniente, era perto do almoço e tal... Mas insistiu que de qualquer maneira, e pegando nas suas palavras, “ Se eu vir de manhã às compras, eu logo passo por aqui.”

“Se eu vir de manhã às compras”??? Será que a Sra. D. Digna tem uma doença rara que só de manhã cega? Tipo “Ah e tal! Das 8.00 às 11.00 não posso trabalhar porque estou de baixa porque tenho uma doença rara em que cego de manhã!!”. Mas mesmo assim não faria sentido.

Faria sentido sim “Se eu vir de manhã as compras” e não “Se eu vir de manhã às compras”.
Mas não. A ideia era mesmo dizer “Se eu vier de manhã às compras...” tal e tal.

Esta é mais uma das particularidades deste povo que dia a dia me vem suspreendendo com os seus hábitos e costumes. Pura e simplesmente eles abuliram o futuro subjectivo do verbo vir da sua gramática.

Presente do indicativo do verbo vir
Eu venho
Tu vens
Ele/Ela vem
Nós vimos
Vós vindes
Eles/Elas vêm

Futuro subjectivo do verbo vir
...eu vier
...tu vieres
...ele/ela vier
...nós viermos
...vós vierdes
...eles/elas vierem

Futuro subjectivo do verbo vir (para os Algarvios)
...eu vir
...tu vires
...ele/ela vir
...nós virmos
...vós ... (este eles não usam)
...eles/elas virem

Coisa mais simples... Alminhas felizardas que têm um verbo a menos para decorar! Temos tantos, se economizarmos... Não são tão tolos como possamos pensar.

E se juntarmos o futuro subjectivo do verbo pôr: “Quando põres gasolina no carro eu logo irei à da ‘nha mãe mais ele”.

Presente do indicativo do verbo pôr
Eu ponho
Tu pões
Ele/Ela põe
Nós pomos
Vós pondes
Eles/Elas põem

Futuro subjectivo do verbo pôr
...eu puser
...tu puseres
...ele/ela puser
...nós pusermos
...vós puserdes
...eles/elas puserem

Futuro subjectivo do verbo pôr (para os Algarvios)
...eu pôr
...tu pores
...ele/ela por
...nós pormos
...vós ...
...eles/elas porem

Mais um tempo verbal poupado. Vai buscaaar!!

Outra particularidade deste magnífico povo é o facto de não se referirem aos objectos e às pessoas através dos seus nomes. Falam sempre d’ele ou d’ela, sendo que nós, tal como já referi, é que temos de perceber de quem ou de quê é que estes seres estão a falar... Não se diz: “Fui com a Ana almoçar à casa da minha avó!”. Diz-se “Fui com ela almoçar à da ‘nha avó!”.

Bem não me vou estender muito mais até porque já me basta ter a cabeça a prémio na vila onde o mar é mais azul.

“Cô brutes, na lutes! C’os moços sã marafados! Deve de ser das besaranhas que lá se fazerem sentir!”.

Resta-me dizer (e convém porque a minha entidade patronal é Algarvia) que, apesar da comunicação ser difícil, os simpáticos habitantes desta região “receberem-me” muito bem e daqui não quero sair! Ao que eles me respondem: “Ma q’jête! Há-des crer e nás de ter!”

2 comentários:

Spirit disse...

Já quase chorei a rir com este teu post!
Muito bom! E principalmente muito elusidativo!! Eu bem me parecia que nessa bela zona de Portugal se falava outra língua ;)
De tanto rir até parece que a dor de cabeça "amainou".

E como se diz "onde o mar é mais azul": terem um bom fim de semana e divertirem-se! lol

Beijos,
Vanda

Zé Gouveia disse...

fo' shizzle my nizzle